A ECONOMIA POLÍTICA DO FUTEBOL BRASILEIRO III

Nos dois últimos posts, tratei: a) do contexto político, esportivo e econômico que atrai os organismos internacionais para o Brasil, bem como do esperado novo papel internacional do nosso país – ainda sem entrar em questões sociais e midiáticas; b) das iniciativas de expansão da rede social dos clubes de futebol com objetivos comerciais mais vultosos e menos dependentes do oligopólio da mídia corporativa nacional – sobretudo em relação aos direitos de televisionamento; e c) dos principais patrocinadores das principais entidades do futebol mundial e sobre a política de distribuição do faturamento por parte da CBF em relação às seleções e aos clubes.

Ressalto que toda a exposição de dados que constam nos dois posts anteriores carecem de uma análise mais intensa acerca das imbricações sociais e econômicas que perpassam a relação direta entre anunciante, mídia, clubes e federações. A expansão das redes e os acordos mais complexos envolvendo outros tipos de troca (até mesmo junto ao Poder Público e a outros grupos de interesse privado em negócios particulares dos executivos do futebol em diversos outros setores) merece uma análise muito mais complexa que demanda tempo. Mas isso será feito.

Em função de tudo o que já foi dito, a crescente credibilidade do Brasileirão resulta de um calendário claro e de uma fórmula de disputa simples, que facilita sobremaneira a sua comercialização. Na temporada de 2009, ocorreu um fator inverso de atração de patrocínio, público e de visibilidade do Brasileirão no exterior: ao invés do simples êxodo de nossos jogadores mais jovens para o exterior e do corriqueiro retorno de jogadores veteranos que pouco ou nunca tenham passado pela Seleção e de jogadores que haviam “desaparecido” em campeonatos obscuros dos pontos-de-vista técnico e midiático (muitos deles tendo passado por lesões graves e cirurgias delicadas em uma ou mais articulações), houve o caríssimo retorno de duas celebridades de indiscutível capacidade técnica, cujo carisma e reputação internacionais superam quaisquer fases de queda de rendimento: Adriano para o Flamengo e Ronaldo para o Corinthians. Não raro, os clubes das duas maiores torcidas do país, das duas maiores cidades brasileiras e ambos como os únicos clubes nacionais que possuem o mesmo fornecedor de material esportivo da Seleção Brasileira. Ronaldo foi peça-chave nos títulos Paulista e da Copa do Brasil (que rendeu ao Corinthians uma vaga à próxima edição da Copa Santander Libertadores em 2010, ano do centenário do clube) no primeiro semestre, assim como Adriano tem sido o principal goleador e o grande pivô da inesperada ascensão do rubro-negro carioca rumo ao G4 – e, quem sabe, até mesmo ao título.

Apesar da importância dos resultados de campo de cada clube a fim de que o mesmo mantenha-se em alto nível nas disputas, outro fator de atração de torcedores para o consumo material, simbólico, presencial e midiático dos produtos relacionados ao futebol é a solidariedade diante da miséria: assim como o Palmeiras e o Botafogo em 2004, o Grêmio em 2005, e o Corinthians em 2007, o Vasco de 2009 tem tido um apoio formidável, tendo lançado um plano de sócios nos moldes dos bem-sucedidos planos do Grêmio e do Internacional, que faz dos dois clubes gaúchos dois entes cada vez menos dependentes das verbas da televisão ao julgarem ser possível obter uma exposição e rendimentos mais vantajosos do que aqueles ora proporcionados pela Globo.

Com isso, os clubes estão-se tornando mais criativos e passam a investir cada vez mais em marketing e comunicação: vários clubes do país já possuem rádios e TVs vinculadas ao próprio site oficial enquanto também procuram conhecer melhor o seu associado através do uso de redes sociais na internet, como  é o caso do EXÉRCITO GREMISTA que – aos poucos – tem feito um uso crescente e estratégico das mídias sociais (blogs, comunidades no Orkut, canais de vídeo no You Tube e de fotos no Flickr) a partir de um conjunto de ações coordenadas entre os departamentos de Marketing e Comunicação e de TI (informática) do clube.

Retomando a importância da expansão da rede de contatos com vista ao incremento do consumo; da menor dependência ao oligopólio da mídia corporativa nacional; da obtenção de novos patrocínios, de financiamentos públicos, de mudanças favoráveis na infraestrutura viária e em alterações favoráveis à valorização de seu patrimônio imobiliário em suas respectivas cidades, os clubes movem-se ora em conjunto (Clube dos 13), ora individualmente. No caso do Grêmio, o ex-presidente (1987-1990 e 2005-2008) e deputado estadual Paulo Odone (PPS; aliado do Governo Yeda Crusius – do PSDB – no RS e do prefeito José Fogaça – do PMDB, com breve passagem pelo PPS – em Porto Alegre) é secretário estadual extraordinário da Copa 2014 em Porto Alegre; o conselheiro do clube e ex-membro do Conselho de Administração (2007-2008) Eduardo Antonini é o vice. Já a secretaria extraordinária municipal da Copa 2014 em Porto Alegre é exercida pelo vice-prefeito e conselheiro do Grêmio José Fortunatti, do PDT (ex-PT). Os ministérios dos Esportes, das Cidades e a Casa Civil (pasta da candidata a presidente em 2010 Dilma Rousseff – ex-PDT, hoje PT).

Recentemente, o diretor de Marketing do Grêmio, conselheiro Cesar Pacheco, deu CTGs (Cartões de Torcedor Gremista) ao presidente da CBF Ricardo Teixeira e ao presidente de honra da FIFA João Havelange.

Não por acaso, o estádio José Pinheiro Borda (mais conhecido por Gigante da Beira-Rio) do Sport Club Internacional – subsede de jogos da Copa 2014 em Porto Alegre – enfrenta um processo judicial que o impede de negociar seu valioso terreno do antigo estádio dos Eucaliptos a fim de obter fundos para as obras exigidas pela FIFA a fim de poder sediar competições internacionais de alto padrão. O deputado estadual Beto Albuquerque (PSB), conselheiro do clube e assessor do presidente colorado Vittorio Piffero (um ator significativo no setor da construção civil gaúcha) está pleiteando um empréstimo a juros baixos com um prazo de carência e quantidade bastante generosa de prestações junto ao BNDES cujo interesse inicial beneficiaria apenas aos únicos três estádios particulares do país (além do Beira-Rio, beneficiar-se-iam também o Cícero Pompeu de Toledo – o Morumbi – do São Paulo Futebol Clube e a Arena da Baixada, do Clube Atlético Paranaense).

Nessa mesma toada, o Grêmio depende da aprovação de um empréstimo para a construtora OAS (vinculada à família Magalhães da Bahia) e da aprovação definitiva do aumento no índice construtivo da área ocupada pelo Estádio Olímpico Monumental desde 1954, a fim de poder entregar esse terreno hipervalorizado como interessa à OAS, para construir a tão falada Arena do Grêmio no bairro Humaitá.

Todos esses acordos políticos e comerciais alteram a identidade e o fluxo urbano (comércio, indústria, escolas, hospitais, praças, transporte coletivo, transporte privado e meio ambiente). Diversas entidades de bairro questionam esses projetos que, por jurisprudência, poderão permitir a liberação da construção de prédios residenciais com 10, 15 ou até mesmo mais de 2 andares em bairros onde o atual Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA) de Porto Alegre atualmente não o permite.

A mídia de massa tem minimizado o impacto de todas essas transformaçõs iminentes em Porto Alegre sem que haja a possibilidade de pensar-se em um desenvolvimento econômico e social alternativo. Essa suspeita recai sobre o Grupo RBS em função de dois fatores: primeiro, porque ele possui uma construtora de imóveis para a classe A chamada MAIOJAMA ; segundo, porque a maior lucratividade do seu caderno de classificados parece vir exatamente dos anúncios de imóveis novos e usados feitos por imobiliárias e construtoras.

5 thoughts on “A ECONOMIA POLÍTICA DO FUTEBOL BRASILEIRO III

  1. Meu caro, acredito que há muito a ser feito para que o futebol no brasil e no mundo tenha o respeito que merece das pessoas que pensam o esporte como elemento importante na construção da identidade de um povo.

    A artimanhas dos bastidores daqueles que dirigem o futebol , em geral buscam proveito próprio, o glamour das carreiras de atletas bem sucedidos, continua iludindo e encantando milhões de jovens oriundos das camadas populares e que certamente a grande maioria terá seu sonho frustrado, a questão é : como estas estruturas podem contribuir para a formação destes meninos e meninas que acalentam estes sonhos?

    Qual o papel social que estas organizações devem exercer?

    • Caríssimo Luciano,

      Em primeiro lugar, obrigado por ter-me encontrado no ciberespaço e – mais ainda – por ter tido a boa vontade de ler um dos meus normalmente enormes textos. :)

      Em segundo lugar, obrigado pelo teu comentário. Vou tentar responder de uma maneira que – espero – funcione como o início de uma bela conversa sobre um tema que a mim é muito caro.

      Enquanto o Brasil tiver essa absurda concentração de renda aliada à uma descomunal exclusão sociotécnica, intelectual e moral, a inversão de valores da nossa sociedade permanecerá confundindo o lúdico e o educativo com o negócio de maneira propositada e sem nenhuma reflexão acerca de suas consequências da mesma maneira que o consumismo neoliberal faz com o público e o privado.

      A questão é: até que ponto ter certeza de que a corrupção, o tráfico de influência, o deslumbramento e a megaexposição midiática de uma determinada maneira de se tratar não apenas o futebol mas, sim, o esporte como um todo (p. ex. Copa do Mundo 2014 e Olimpíada 2016) serão capazes de atrair muito mais divisas para que o esporte de base e para que a recreação como fonte de uma vida fisicamente saudável, mentalmente equilibrada e socialmente educativa do que se o investimento direto nesse segmento de base fosse realizado de forma direta.

      Sou um homem formado no movimento estudantil de escola e universidade pública, filho de um cara genial que foi muito pobre, ganhou a vida honestamente e não teve ambição maior do que a de ser um funcionário público incorruptível, ético, responsável e bem remunerado que na aposentadoria ainda prestou um serviço relevante a toda uma categoria. Esse meu lado diz que sim, que o investimento direto na base reduz a corrupção, afasta o deslumbramento e promove uma mudança emergente tão significativa quanto discreta.

      Já o meu lado acadêmico de publicitário e de mestre em Ciências da Comunicação, embora beba muito em uma matriz sociológica de esquerda, ao invés de pensar em divisão de classes em massa e em povo; ao invés de defender valores modernos baseados no trabalho fundado sob o moral judaico-cristão e sob a linha de montagem taylorista-fordista, defende a pós-modernidade da emergência das multidões como uma maneira de engajar uma quantidade maior de pessoas sem que, para isso, seja necessário evangelizar alguém ideologicamente. Eu penso em rede. Dessa forma, nenhum extrato social pode ficar de fora e tudo interfere em tudo, assim como tudo colabora com tudo.

      Não sou maquiavélico. Porém, talvez eu esteja redondamente enganado nesse tipo de arranjo sociocultural, onde os fins podem talvez justificar os meios.

      Toda transformação tem seus prós e contras. Durante muito tempo, fui mais pessimista do que otimista. Contudo, meu já demonstrável otimismo ainda assim é bastante desconfiado.

      []'s,
      Hélio

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