POR QUE OS TÉCNICOS PRECISAM DOMINAR A LINGUAGEM DOS GAMES

Olha, “tigrada” querida,

Vocês sabem que o meu maior passatempo é observar times, jogadores, campeonatos de futebol mundo afora.

Então, já perceberam que eu canso de criticar – com muito lamento – a atual situação do futebol brasileiro, na qual os meninos das categorias de base são criados por mecenas inescrupulosos e por pais ignorantes e gananciosos que já põem na cabeça de seus pupilos que a vida deles será na Europa.

Quem gosta de futebol sabe que não há nenhuma novidade nisso. Mas precisamos repetir ad nauseam para que a situação melhore: afinal de contas, somos militantes e ativistas pela causa do bom futebol.

Em função disso, o futuro do futebol brasileiro não cria identidade, não demonstra reconhecimento, não sente gratidão, não atribui valor a quase nada ou a quase ninguém. Esse círculo vicioso os induz a já se desenvolvem sem garra, sem valorizar a quem lhes ajuda. Por não se importarem com o sentimento do torcedor, são incapazes de perceber que – por tabela – não se importam consigo mesmos.

Então, sobra para nós, torcedores, e para os nossos clubes centenários, o rebotalho: passamos, então, a acumularmos jogadores medíocres e ruins, além do enganoso ganho de qualidade oriundo da repatriação de veteranos fisicamente débeis, cuja motivação é sempre duvidosa.

Aí, quando temos um time bom, bem armado, que procura não acelerar nem segurar demais a introdução dos jovens pratas da casa; com dirigentes inteligentes e modernos, que mantêm técnicos por duas ou mais temporadas; e que conquistam títulos… Em um dado momento, bem antes desse time atingir o seu apogeu, ocorre uma debandada para a Europa.

Entendo o mercado, os poderes econômico e político, etc. Mas, ainda assim, é preciso reconhecer que nem tudo está perdido.

Tenho assistido à Serie A TIM (primeira divisão da Itália), à Ligue 1 (primeira divisão da França), à Eredivisie (primeira divisão da Holanda), à Primera División (Argentina), à Liga Bancomer MX (primeira divisão mexicana) e à MLS (Major League Soccer, a liga profissional estado-unidense). E, em linhas gerais, onde a qualidade técnica não chega a ser tão baixa, há apenas dois ou três postulantes ao título, além de os candidatos ao rebaixamento serem quase sempre os mesmos.

As exceções são a Barclay’s Premier League (Inglaterra) e a 1.Bundesliga (Alemanha), que apresentam – no mínimo – três ou quatro times capazes de disputar o título e uma alternância maior entre os pobres candidatos à degola. Não por acaso, são as ligas em que há mais dinheiro rolando e maiores cobranças em relação à responsabilidade fiscal e contábil.

O Brasil perdeu a espontaneidade do drible e a inteligência do improviso quando a especulação imobiliária acabou com a existência dos campos de várzea nas grandes cidades. Outro fator de perda de qualidade e de diversidade também foi a proliferação de gramados sintéticos pagos e de escolinhas cujo acesso só é possível a crianças de classe média e alta.

Os melhores professores de Educação Física e os técnicos mais experientes poderão me corrigir e até mesmo me ajudar: a IMPRESSÃO que eu tenho é a de que, antigamente, nossos craques eram mais espontâneos e independentes, embora – em sua maioria – também fossem desescolarizados e ingênuos. Apesar disso, possuíam maior autonomia de opinião e maior personalidade para bater no peito e chamar para si a responsabilidade de decidir uma partida. Hoje, com escolas públicas piores, os que estudam apresentam um déficit cognitivo. E, em meio a uma sociedade que regrediu ao autoritarismo velado e a uma falsa religiosidade que rebaixa pessoas a rebanhos passivos, fieis, obedientes e medrosos, se “agrandou” a “cagação” de regras por parte da maioria dos treinadores, cuja importância parece ser exagerada desde que a eles se atribuiu o rótulo de celebridades e de “doutores” em futebol.

A “boleiragem” pura e o “cientificismo” puro não dão conta nem da diversidade, nem da necessidade do entendimento da personalidade, bem como da precisão na identificação das características positivas e das falhas que os meninos precisam corrigir. Nesse sentido, o aperfeiçoamento acadêmico e empírico da Fisiologia, da Nutrição, da Psicologia Clínica, da Medicina e da Educação Física realmente nos proporcionam uma infinidade de ganhos. No entanto, o predomínio da SENSIBILIDADE é o verdadeiro motor do método bem aplicado.

Mesmo assim, até mesmo o videogame (PES e FIFA) tem sido importantíssimo para compensar o déficit educacional e a linguagem equivocada da maioria dos técnicos, que não se decidem entre o “boleirês” e o “professoral”: a quantidade de canais de TV que mostram campeonatos estrangeiros só aumenta, além do aperfeiçoamento dos comentaristas contemporâneos, que não são mais meros analistas de boteco.

De volta ao FIFA: a configuração das câmeras e a possibilidade de o próprio menino escolher jogadores; observar as valências de cada um e a comparação constante a sua atuação no futebol virtual em relação ao jogador “de verdade” na TV muitas vezes ensinam muito mais em termos táticos e em posicionamento do que muitos técnicos que temos hoje em dia.

Notem bem: temos aí Cruzeiro, São Paulo, Internacional, Grêmio, Atlético-MG, Fluminense e Corinthians degladiando-se ponto a ponto, gol a gol, rodada a rodada, tanto pelo título quanto por uma vaga à Libertadores 2015. Muitas vezes, equilíbrio não é sinônimo de qualidade. Vemos, em todos esses times, qualidades de primeira linha, mas também falhas bisonhas. Nenhum deles é imbatível. Mas apresentam, sim, um grau de qualidade MÉDIO superior ao da maioria dos times que disputam as ligas que eu citei parágrafos atrás.

Agora, imaginem se conseguíssemos manter a maioria dos melhores jovens por mais tempo – pelo menos até uns 24 anos de idade, momento em que estão próximos do auge; imaginem também se os nossos técnicos APRENDESSEM A SE COMUNICAR COM A LINGUAGEM DOS GAMES E DOS COMENTARISTAS QUE SE BASEIAM NA HISTÓRIA E NAS ESTATÍSTICAS…

…Certamente isso traria reflexo à Seleção e garantiria que teríamos Brasileirões emocionantes como o de 2014 praticamente todos os anos.

MEU TRATADO POLÍTICO PESSOAL

Se alguém quiser me conhecer melhor, em primeiro lugar, não concordo com NENHUMA visão do grupo social que o prof. Juremir retrata e critica neste artigo. Em alguns casos, eles agem por ignorância; em outros, por medo; por oportunismo; em busca de vantagens financeiras custe o que custar, por preconceito de classe e até mesmo por falta de caráter. De qualquer forma, para saber com quem e por que vale a pena conviver dentre os que pensam e agem dessa maneira, só mesmo conhecendo melhor um por um.

Ao mesmo tempo, essa constatação não isenta de responsabilidade nem de culpa e não protege moralmente nenhuma pessoa que concorde com a minha visão de esquerda: afinal de contas, dentro da própria esquerda há ignorantes, covardes, oportunistas, gananciosos, preconceituosos e maus caracteres. Pra separar o joio do trigo, em que pese o julgamento de cada um ser extremamente subjetivo e exclusivamente pessoal, só mesmo conhecendo melhor um por um.

Há pessoas solidárias e profundamente sensíveis para conosco de direita e pessoas extremamente hipócritas de esquerda. De qualquer forma, perde-se menos tempo e produz-se conversações mais gratificantes e com um sentido social mais amplo em discussões com pessoas de esquerda do que com pessoas de direita.

O que fica bastante claro para mim: salvo em raríssimas e honrosas exceções, muito dificilmente uma pessoa de esquerda e uma pessoa de direita irão concordar em uma série de assuntos relacionados à economia, à política, aos direitos humanos, à identidade, ao respeito, à valorização da cultura e à compreensão das peculiaridades físicas, emocionais e comunitárias de gênero, de etnia, de religião; ao estado de bem-estar social; ao que é público e o que é privado; às preferências sexuais; ao que é liberdade de imprensa e o que é liberdade de empresa e assim por diante.

Infelizmente, poucos entendem que todos tem lado, sim. E que não é assim tão simples crer que deve-se buscar o que de melhor cada um tem a oferecer quando, para essa interlocução, é impossível haver um altruísmo genuíno, pois sempre será preciso dar algo muito precioso em termos morais em troca, além de não existir “almoço grátis”.

Apartidarismo pode até existir. Eu, mesmo, um simpatizante e militante jamais filiado e que jamais pedi emprego a político algum (ser prestador de serviços na minha área é uma outra história), mantenho-me à esquerda, mas vejo o PSOL como anacrônico, histriônico e sem projeto nem quantidade e qualidade técnica e de estabelecimento de redes de contato sólidas o suficiente. É um conjunto de pessoas geralmente éticas, porém, pouco capazes de fazer mais do que reunir estudantes para manifestações populares (o que – convenhamos – já seria suficiente, mas não o justifica como partido).

Nenhuma outra opção mais à esquerda pode ser seriamente considerada, como PCO e PSTU. Todo o resto do espectro é claramente de direita, pois não existe centro. Alguns podem ser mais conservadores do que reacionários; outros, podem ser mais populares do que oligárquicos; outros, podem ser mais empresariais do que trabalhistas… Mas são todos voltados à direita.

Não voto nulo. Não voto em branco. Não voto na pessoa. Não faço “salada de frutas” partidária com o meu voto. Não me vejo na obrigação de ser fiel mas, sim, de ser coerente. E, INFELIZMENTE, não existe outra opção para mim, apesar de todos os imensos pesares, de votar em alguma alternativa que não seja o PT.

Me vejo, sim, obrigado – por uma questão de honestidade e de coerência – a criticar severamente o sistema. Mas não é um sistema político-partidário-legal que vitimiza o PT nem que o força a fazer o que não quer apenas em nome da manutenção da governabilidade: trata-se de um modelo de democracia obtuso e controverso do qual o próprio PT obtém vantagens à medida que parte do seu staff ora no poder defende que “os fins justificam os meios”. E é aí que o PT deixou de ser O BOM E VELHO PT.

A questão toda está relacionada a uma profunda reforma que não é apenas política, não é apenas voltada ao financiamento das campanhas nem de formatação hierárquica de cargos técnicos e políticos nos âmbitos municipal, estadual e federal: é uma reforma MORAL, que deve necessariamente empoderar e – mais do que isso – responsabilizar o cidadão para agir mais e delegar menos; para esclarecer-se mais acerca do que se vota e se discute nos parlamentos, pois, afinal, essas decisões irão definir a sua vida, a vida de seus familiares, amigos, etc.

Grande parte das boas soluções socioeconômicas, culturais e afetivas têm sido realizadas em rede, de maneira independente, sem a necessidade de obter financiamento junto a governos que fazem pouco ou a empresas que exigem contrapartidas muitas vezes inaceitáveis do ponto-de-vista puramente humano.

De qualquer forma, até mesmo essas iniciativas brilhantes (economia popular solidária, crowdsourcing, crowdfunding, wikicidades, etc.) dependem enormemente da estrutura política, partidária e empresarial predatória e anacrônica.

O Brasil ainda está muito distante de uma verdadeira democracia horizontal, emergente. Estmos barbaramente distantes de uma justiça justa, que não seja uma mera defesa patrimonial e classista dos oligarcas e de seus herdeiros. Muito já foi feito – inclusive por vias tortas – desde que Lula assumiu o país em 2002. estamos com dez anos e meio de um governo que faz bonito quando inclui como nunca e erra feio quando vende a alma ao diabo por medo de um golpe de estado.

A chance de largarmos esse modelo idiossincrático, contraditório, incoerente e predatório é a de realmente procurarmos deixar o puxa-saquismo, o chapa-branquismo, o clientelismo, o lumpesinato, o oportunismo, o ódio, a ganância, a ignorância e a estupidez de lado sendo simplesmente HONESTOS.

O EFEITO TOSTINES: MÍDIA E REACIONÁRIOS

O título deste post atualiza e propõe uma brevíssima problematização acerca de uma variação recente do publicitariamente bem-sucedido “Paradoxo de Tostines”:

A maioria dos brasileiros é reacionária e ignorante por causa do discurso hegemônico simplista e classista da mídia corporativa ou o discurso hegemônico da mídia corporativa é simplista e classista porque a maioria dos brasileiros é reacionária e ignorante?”

Se o Brasil tivesse congressistas, governantes e uma quantidade maior de acadêmicos de  Psicologia Social, Ciências Sociais (Antropologia, Ciência Política e Ciências Sociais), Filosofia, História, Geografia, Direito, Ciências da Comunicação e Serviço Social dispostos a investir tempo e dinheiro para investigar esse paradoxo ao redor do mundo com ênfase na nossa realidade, certamente estaríamos em um grau de desenvolvimento civilizatório amplamente superior ao atual. Primeiro, porque haveria um retrato confiável e devidamente segmentado (faixa etária, gênero, escolaridade, religião, ideologia, profissão, porte da região, do estado, da cidade, etc.); segundo, porque esse mapeamento proporcionaria a definição de políticas públicas de Comunicação de Massa e de Comunicação Digital com amplos reflexos no aperfeiçoamento da cidadania e também da economia. Por hora, só podemos contar com iniciativas isoladas.

De qualquer forma, mesmo sem o necessário aporte financeiro e sem a devida priorização oficial (seja no âmbito público, seja no privado) dessa discussão, felizmente, graças às mídias sociais na internet, é possível conversar, debater, aprofundar, cocriar e co-responsabilizar pessoas inteligentes e estudiosas de forma voluntária.

Como não fico em cima do muro, tenho uma intuição. Mas intuição não é ciência. Logo, se eu quisesse ser tão simplista quanto o discurso dessa mídia, diria que a minha crença aproxima-se da célebre frase de um saudoso jornalista húngaro naturalizado estadunidense (e ex-congressista nos EUA) chamado Joseph Pulitzer (que tornou-se nome de prêmio):

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma” PULITZER

Portanto, só o fato de eu me posicionar sem uma comprovação científica apurada, já me põe em contradição com o discurso acima: eu prego a comprovação, a apuração, a presença da palavra de todos com o mesmo espaço e sob o mesmo tom, mas tenho uma IMAGEM sobre como o microcosmo da pequena fração da realidade na qual estou inserido se parece.

Todos têm os seus próprios valores. E nenhuma opinião pode ser calada. De qualquer forma, quais são os critérios necessários para se dar mais espaço ou mais ênfase ou a um determinado viés, ou à consagração como especialistas de indivíduos qualificados, sim, mas que – assim como demonstrei acima sobre mim mesmo – possuem os seus próprios valores e crenças?

O problema está na mediação ou na curadoria: a definição do que é notícia; da importância de uma determinada opinião em detrimento de outras; e a opção pela hierarquia de cada informação são 100% subjetivas.

Todos os administradores de conteúdo estão no seu direito. Mas, por uma qustão de honestidade, é importante (pra não dizer decisivo para a sua credibilidade) declarar quais bandeiras os donos da mídia levantam em cada questão e sob quais critérios.

Finalmente, a distribuição e o padrão tecnoestético (que são fruto de um maior investimento e de uma maior permissividade da lei, que não prevê a igualdade de oportunidades a partir de um mesmo ponto de partida) são decisivos na escolha de qual versão será a mais acessada: entra aqui uma outra frase feita, que diz

Quem não é visto, não é lembrado.

Existem visões diferentes da hegemônica. Mais do que isso, existem visões oferecidas por especialistas tão ou mais competentes do que os comunicadores que são privilegiados por se expressarem e por acreditarem sob a forma mais comumente repetida pela maioria das pessoas. Contudo,

“Toda unanimidade é burra.” RODRIGUES, Nelson.

Por isso, na minha dissertação de mestrado, pesquisei sobre a sociabilidade entre blogueiros políticos de esquerda da Grande Porto Alegre. Por isso, a conversação e as dinâmicas sociais presenciais e no ambiente digital sempre me atraíram. Foi por isso que problematizei a questão do contraponto à mídia hegemônica.

E é pelos mesmos fatores de motivação que defendo a descentralização e a desinstitucionalização do poder, procurando tornar as discussões mais amplas.

Quem sabe quando a sociedade estiver madura o suficiente para ser despartidarizada, sob um modelo democrático verdadeiramente representativo, responsabilizante e esclarecedor

Nesse sentido, ou passamos à ação com urgência, ou permaneceremos assim