DISCUSSÃO SOBRE AS PRÁTICAS E AS CRENÇAS DO (E NO) JORNALISMO HEGEMÔNICO

A premissa inicial da primeira publicação deste post no longínquo 02/03/2013 baseou-se na relação polêmica entre fãs, associados, torcedores, dirigentes, conselheiros e também dos próprios jornalistas (trabalhem eles em veículos hegemônicos ou não) a partir da descrença ou de um viés prejudicial, criminalizante ou meramente simplista e ignorante acerca dos fatos e das pessoas que compõem a dinâmica do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

Trata-se de um conteúdo reflexivo, cujo objetivo é informar e debater sobre as razões pelas quais é impossível haver neutralidade, equilíbrio, paridade ou isenção em quaisquer instâncias definidas por e para sujeitos.

A importância desse esclarecimento deve-se ao reconhecimento de que o campo social da mídia é o único campo social cujo discurso perpassa todos os demais campos sociais, a fim de traduzir todos os discursos de natureza vicária para situarmos o público no mundo em que vive, para que a maioria dos consumidores de conteúdo possam compreender – de maneira simplificada – as discussões dos círculos fechados de cada corporação de ofício (campos médico, jurídico, militar, religioso, político, econômico, desportivo, artístico, etc.). FAUSTO NETO, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da UNISINOS é um dos maiores especialistas da área, para quem quiser aprofundar-se na relação entre campos sociais, jornalismo e política.

Hoje, vivemos um momento altamente turbulento da vida política, social, econômica, cultural e simbólica brasileira (do qual somos tanto protagonistas quanto coadjuvantes, vítimas e culpados ao mesmo tempo).

Como essa discussão é atemporal e diz respeito ao modo de fazer, de financiar, de interpretar, de adquirir reputação e de prestar contas acerca do discurso produzido por toda e qualquer editoria jornalística, decidi editar e republicar um texto antigo que – inicialmente – fora produzido para discutirmos o jornalismo esportivo na Grande Porto Alegre.

Dessa forma, podemos facilmente substituir fatos, relações e consequências dessa dinâmica social e tecnológica dentro do âmbito esportivo (mais especificamente do futebol e – particularmente – do gremismo) para a política, para a economia, para a religião, para o esporte, para a educação, para o direito, para a psicologia, para a moda e para quaisquer outros campos sociais.

Comunicação e informação são temas seríissimos para que possamos ter uma sociedade mais justa, mais honesta, mais politizada e mais reflexiva. A educação e a cultura passam pela necessária diversidade de posições políticas, econômicas, técnicas e retoricamente mais bem apuradas, de forma que possamos sofisticar o entendimento acerca das opções que podem tanto nos libertar como nos oprimir.

Um post do Mauro Beting no Lance.net suscitou duas ótimas discussões em blogs gaúchos: o Rafael Pinto do Mesa de Bar do Grêmio e o Eduardo Cecconi do Impedimento envolveram outras variáveis e aprofundaram alguns pontos sob os quais faça maior ou menor sentido defendermos ou criticarmos com veemência tanto a prática jornalística quanto o imaginário do senso comum do consumidor regular da mídia “esportiva”. Vale a pena conferir esses links, mesmo em um diferente momento espaço-temporal. Mas só depois de terminar este post, OK? ;)

Afirmo, com base em centenas de artigos científicos publicados no mundo inteiro ao longo de décadas, que o consumidor de informação não é passivo: afinal de contas, ele faz uso de suas crenças e de suas referências, a fim de estabelecer os seus próprios juízos acerca de qualquer assunto. Em função dessa afirmativa, considero uma cláusula pétrea o fato de, independentemente da experiência, dos graus de profissionalismo ou de escolaridade de cada um, a busca de diferentes posições (sejam estas especializadas ou não; ideologicamente diversificadas ou não) todos têm o direito de discutir sobre qualquer assunto.

Por que entendemos que o consumidor e o público não é passivo? Porque, desde a década de 1970 na Inglaterra, a Teoria dos Estudos Culturais em Comunicação, uma vertente que cresceu e tornou-se influente na pesquisa, contesta o pensamento do período Entre-Guerras (Teoria Hipodérmica) e do Pós-Guerra (Teoria Matemática).

No atual estágio da produção e do uso simultâneos de conteúdo (v. produser; produsage in BRUNS, Axel e os trabalhos de JENKINS, Henry sobre Convergência e Conexão), a facilidade de editar, publicar, remixar e ressignificar toda a sorte de informação digital e de compartilhá-la a baixo custo para o mundo inteiro demonstra a construção de olhares individuais e coletivos nessa reformulação de um discurso pré-existente.

Temos, então, fãs e militantes com o potencial de publicar uma infinidade de discursos ora técnicos, ora factuais, ora de endosso de opiniões que consideram balizadas, ora de ódio, ora de profunda “torcida”.

Logo, cada grupo deve ser pesquisado pontualmente: sem a devida análise de cada um desses nichos, não considero correto, justo e nem honesto comparar as suas práticas sociais em função de como produz e como consome a mídia em um dado contexto. Eis um livro muito interessante para quem quiser saber mais sobre isso. ;)

Portanto, se o consumidor de informação midiática não é passivo, uma outra conclusão geral é a de que o público influencia e é infuenciado pela forma com que o noticiário lhe apresenta o mundo.

Independentemente do grau de desenvolvimento econômico, tecnológico, social ou cultural de cada sociedade, o jornalismo e a publicidade são muito importantes para que sejamos informados sobre o que acontece e como podemos proceder no mundo que nos circunda. Afinal de contas, não podemos estar em todos os lugares ao mesmo tempo e é impossível conhecermos detalhadamente qualquer assunto.

O jornalismo – como todo modelo discursivo – também apresenta uma série de intencionalidades: para quem se dirige a informação? Sob qual ideologia? Com quais objetivos (sociais; comerciais – para o veículo, para o anunciante – e de poder)?

Esta foi a primeira justificativa para demonstrar a ausência de neutralidade, paridade, igualdade ou equilíbrio. Entremos mais fundo nessa impossibilidade abaixo, analisando uma dinâmica que envolve uma articulação complexa de práticas que pretendo demonstrar abaixo.

Para produzir o seu discurso, o jornalista, como todo ser humano, possui o seu próprio conjunto de crenças. Ele presume dominar o conhecimento sobre um modelo mental de massa e de nicho ao qual pretende influenciar e de quem sofre influência. Sua produção tende a ser mais eficiente quando ele demonstra identidade (quando está inserido) ou distanciamento (quando observa mas não se enxerga como parte que influencia e é influenciada por um dado contexto). Esta premissa nos leva a quatro pontos cruciais na distorção intencional da informação:

1) Quem opta por trabalhar para um veículo de uma corporação de mídia em troca de maior visibilidade do seu trabalho (afinal de contas, empresas grandes possuem mais dinheiro e maior audiência porque detém os meios de produção – o que torna a distribuição da mensagem muito mais ampla) deveria estar ciente de que, em troca do privilégio de poder ser lido, assistido ou ouvido a partir de um veículo de maior alcance e circulação, perde a sua independência para tornar-se um mero vassalo de uma indústria que sobrevive da publicidade. Não importa se o salário é de R$1.200,00 ou R$120.000,00: em busca de notoriedade, vários jornalistas gostariam de ser tratados como celebridades. Infelizmente, a vaidade tende a crescer e entra-se em um círculo vicioso de bajular e ser bajulado. Felizmente, AINDA há profissionais que escapam dessa lógica. Porém, são poucos;

2) Quem mantém a máquina em funcionamento (os anunciantes) jamais admitirá que a sua indústria, o seu serviço, a sua marca ou os seus atores (presidente, executivos, funcionários, patrimônio) sejam contestados. Afinal de contas, o freguês sempre tem razão. Isso tem implicações gravíssimas: o discurso, então, é feito para induzir a sociedade de que a marca que não quer anunciar em um dado veículo e os políticos que não defendem os interesses desses anunciantes nem da indústria da mídia são irrelevantes, de qualidade inferior, corruptos, assassinos, retrógrados, ignorantes ou limitados. Nesse ponto, a mistura de publicidade com jornalismo a partir de um amplo esforço de assessoria de imprensa via matérias pagas (“jabá”) engana a sociedade, que acaba acreditando e repetindo os valores mercantis e políticos desses atores como se realmente fossem os mais importantes para todos;

3) Os próprios jornalistas também fazem parte do público que consome as mensagens que eles mesmos produzem. Isso gera duas distorções:

– A primeira delas é  de ordem narcisista (“eu observo melhor, eu escrevo melhor, o meu espaço é o maior, todos me leem”);

– A segunda distorção refere-se ao “ensimesmamento” das redações, quando passa-se os dias lendo e assistindo incessantemente ao produção de seus colegas e de seus concorrentes em detrimento da observação etnográfica (isto é, do pé no barro, da convivência com o cidadão comum, da relação cotidiana e mundana com as pessoas de fora do seu próprio meio) e da leitura mais profunda e sofisticada (que deveria necessariamente ser OBRIGAÇÃO de todo funcionário dessa indústria), para saber investigar, apurar, comparar e pesquisar.

Essa prática laboral e cultural reduz a mídia como um todo a um conjunto de aquários repletos de peixes que enxergam apenas uma ínfima fração do mundo: seu campo de visão encerra-se à sala na qual estão inseridos como um ornamento.

Pior do que isso: além do campo de visão reduzido, não podem interagir diretamente com o ambiente porque vivem debaixo d’água cercados por paredes de vidro.

Essa bolha faz com que acreditem ser o seu discurso sempre o mais verdadeiro ou o mais adequado a qualquer propósito.

Assim, tanto o jornalista mal-intencionado como o bem-intencionado encontram-se tão submissos à lógica dessa indústria que possuem pouca autonomia para questionar a validade e as consequências de como realizam o seu trabalho e de como seus chefes lhe impõem valores deturpados por viverem sob uma rotina roborizada.

4) As benesses da vivência dentro de círculos de poder tendem à leviandade: no caso do futebol, estar dentro dos clubes com acesso direto a dirigentes, comissão técnica, jogadores e torcedores; na política, o acesso a entrevistas exclusivas, à primeira fila das coletivas, a um jantar, uma recepção ou uma viagem “de acompanhamento técnico” em troca de um serviço de relações públicas e de assessoria de imprensa informal tanto para agradar à fonte quanto ao patrocinador e ao patrão.

Essa relação corrói de maneira insofismável a relação entre o repórter e a sua fonte: primeiro, porque não pode haver troca de favores; segundo, porque é muita mesquinharia aceitar desequilibrar tanto o viés como a quantidade de espaço para um dado clube (partido, sindicato, igreja, entidade de classe) e suas personagens. Segundo, porque o informante fornecedor da benesse obviamente possui uma intenção ao revelar algo para um jornalista. Apesar do jornalista poder decidir se essa informação é séria e relevante ou se, apenas para aparecer e para polemizar, dramatiza o seu relato com a intenção de fomentar alguma crise ou induzir ao medo ao ódio ou a um grau de simpatia desmedido, ao atingir esse ponto, ele já está altamente comprometido e – portanto – fortemente influenciado.

Isso posto, temos dois conjuntos (ou categorias) de (des)informação:

– O primeiro refere-se a questões éticas, políticas e econômicas (manipulação desonesta), conforme descrito acima;

– Em um grau um pouco inferior, temos as falhas técnicas não-propositais (erros de apuração, de investigação, erros de ortografia, opiniões pouco balizadas). Em todos os casos, a gravidade de notícias enviezadas demais refere-se à propagação de crenças que induzam o público a ter prejuízos de qualquer natureza (risco de morte, de doenças evitáveis, de perder patrimônio ou de sofrer danos morais e emocionais).

É preciso ter muita responsabilidade e atenção: eu, mesmo, já cometi um erro gravíssimo por falta de revisão: troquei um nome em uma crítica sobre um criminoso pelo nome de um homem limpo, pois seus nomes eram parecidíssimos. Além de eu não ter relido com atenção, também não solicitei ajuda de outra pessoa para ler meu texto antes de publica-lo. Felizmente, não fui processado e, ainda, troquei muitas ideias com a viúva – uma pessoa altamente culta, inteligente e sensível. O importante é ter boa fé, reconhecer a falibilidade, ser humilde, corrigir a tempo e – sobretudo – colocar-se no lugar de quem possa vir a ser prejudicado.

Até mesmo nos erros é preciso ver o lado bom – o do aprendizado sobre as consequências daquilo que se diz. Portanto, não tenho vergonha nenhuma em admitir esse fato.

Grave mesmo é quando tentam forçar a barra para tornarem-se referências nas redes sociais da internet (sobretudo no Twitter e no Facebook): estes, quando cometem erros ainda piores, além de não desculparem-se e de não corrigirem-se, desaparecem como se nada tivesse acontecido.

Isso serve para jornalistas profissionais e também para apaixonados pela Comunicação em geral: a mentira tem perna curta e o pedantismo de querer transmitir uma imagem “infalível” traduz-se sob a forma de desvio de caráter.

Em outras palavras, as teorias de redes sociais (não restritas ao uso e à função de sites ou aplicativos que conectam pessoas via internet, mas, sim, no tocante ao estabelecimento de laços entre as pessoas, seja por afeto, por tema ou por grupo de interesse) invariavelmente apontam que sempre haverá uma hegemonia central e uma periferia em qualquer instância social, econômica, cultural, simbólica, etc. Primeiro, porque as pessoas sempre buscam referências acerca de qualquer tema (o mais sábio, o mais forte, o mais bonito, o melhor advogado, o melhor médico, o melhor professor, o melhor repórter, etc.). Segundo, porque, quando essa atração por referência não se dá por mérito, se dá a partir de configurações econômicas, demográficas, informacionais e tecnológicas. Esses fatores definem o grau de transmissão e de acesso às referências – que, nesse caso, tendem a ser definidas ideologicamente a partir da supervalorização de um viés e da criminalização ou da estupidificação de outro, da exposição de um e da omissão de outro.

Infelizmente, a esmagadora maioria das pessoas não possui treinamento adequado em análise do discurso nem em economia política para compreender que o jornalismo (ainda que realizado com excelência técnica, independência política e econômica e uma mediação o menos desequilibrada possível para todos os lados existentes de uma mesma questão) é um gênero literário como a poesia, a prosa, a crônica, o romance e tantos outros. Logo, ele contém em si o olhar de um indivíduo que possui os seus valores e realiza uma edição, uma mediação, uma curadoria acerca de tudo o que será ou não dito – de que forma e para quem –  a partir do seu próprio entendimento, que é sempre baseado em critérios necessariamente arbitrários e subjetivos.

Essa constatação não é exatamente um fator de desconfiança total, nem demonstra que a maioria dos jornalistas seja tecnicamente incompetente ou essencialmente desonesta. Contudo, por mais bem-intencionado, correto e criativo que um jornalista o seja, a sua mediação é uma atribuição de poder que ele exerce sobre quem ele exclui, uma prestação de contas ou uma subordinação a quem ele inclui mesmo de forma inconsciente.

Afinal de contas, a definição de como discursar a partir de um determinado espaço que atrai um determinado perfil de audiência nada mais é do que uma escolha. E toda escolha é estritamente pessoal e, portanto, arbitrária.

Sobre escolhas: seja por dinheiro, seja por prestígio, seja pela sobrevivência, seja pela defesa de pessoas, crenças ou valores, todos sabem muito bem as consequências daquilo que estão fazendo. Com ou sem uma arma na cabeça; com ou sem a ameaça do desemprego; com ou sem o risco da perda de um amor ou de um círculo de relacionamentos, ninguém pode fazer ou deixar de fazer o que está sob a responsabilidade de um indivíduo qualquer.

Logo, é importante procurar arranjar tempo para verificar várias mídias diferentes, de empresas diferentes, sem jamais menosprezar aquelas que não são as mais conhecidas do grande público. A partir disso, cada um irá determinar as suas próprias escolhas.

Porém, a centralidade da propriedade de muitos veículos de mídia (isto é, de emissoras de rádio e TV, portais de conteúdo na internet, jornais, revistas, produtoras de cinema, produtoras fonográficas e editoras) nas mãos de poucos restringe o acesso e a distribuição de informação produzida e compartilhada por pessoas que não fazem parte dessas grandes corporações.

Esse desequilíbrio sugere que, apesar da liberdade de expressão garantida pela Constituição, no momento em que a infra-estrutura de produção e os meios de distribuição da informação estão concentrados nas mãos dos chefes de quem publica, reporta e opina e quando esses mensageiros consideram-se donos e não vassalos, a hegemonia econômica, política, discursiva e simbólica dessa indústria induz o público a deslegitimar quem opina e noticia sob uma ótica diferente por não possuir nem o mesmo alcance, nem o mesmo padrão técnico e estético.

A visão de que um veículo é supostamente “inferior” por possuir menor velocidade de conexão; por não contar com estética e funcionalidade contemporâneas em seu design; por não possuir iluminação, qualidade de áudio, de imagem e de exposição de primeira linha mascara um pensamento único, cujos objetivos comerciais e políticos deslegitimam artificialmente a quem quer informar e debater com menos recursos.

O consumo de mídia é hábito: a voz, a aparência, o tom, a temática do discurso, a marca, a qualidade técnica e estética da transmissão e a rotina trazem o costume de atribuir maior reputação a quem aparece mais, sob a forma que mais atrai a atenção da maioria das pessoas.

Finalmente, todo esse desequilíbrio também deve-se à competência absurda dos comunicadores da mídia corporativa hegemônica: afinal de contas, mais do que contar a essência da sua versão da verdade, dizem mais aquilo que o público está acostumado a ou prefere ouvir do que propriamente sobre aquilo que deveria aprender e refletir.

O jornalismo e a publicidade podem ser bons e corretos. Há um dever de servir à sociedade inerente à necessidade de informá-la. O Direito à Comunicação está contemplado na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

Mas qual o conceito de serviço de utilidade pública e de responsabilidade social que empresas de comunicação que prestam contas a patrocinadores que os financiam para que sejam seus megafones de propagação de valores apresentam?!

De qualquer forma, debater é preciso! :)

RÁDIO GRÊMIO: PRÓS E CONTRAS

O  surgimento de uma Rádio Grêmio depende da autorização do Ministério das Comunicações e da aprovação do Congresso Nacional para obter a concessão de uma faixa do espectro das ondas de radiodifusão (que funcionam para a transmissão de programas tanto para receptores de rádio como de televisão, pois irradiam sons e imagens).

As ondas de radiodifusão estão no ar. E tanto as riquezas naturais do céu como as do subsolo pertencem à União. Após a comprovação do cumprimento de todos os requisitos técnicos e financeiros exigidos pela Lei das Telecomunicações, a partir daí o aspirante a concessionário passa a depender da agilidade (ou da falta de) da burocracia.

Ouvi falar (mas ainda não tenho a confirmação da certeza dessa informação) que o Grêmio já passou por essa etapa e hoje aguarda pela concessão.

Pessoalmente, eu quero entrevistas e narrações de jogos das categorias de base, programação que também privilegie a participação do associado e a recuperação do acervo histórico do clube. A linha editorial deve ter como tônica a emoção e é preciso defender os interesses do clube. Ela deve funcionar como um contraponto às críticas mal feitas ou às inverdades ditas contra nós.

Mas é preciso fazer uma ressalva: uma emissora do Grêmio, por mais necessária e bem-vinda que seja, também requer uma recepção criteriosa a partir do filtro subjetivo de cada um de nós. Naturalmente, essa rádio tricolor será chapa branca, pois toda a postura de assessoria de imprensa assim o é. Será criado um “campo de distorção da realidade”, no qual a crítica do clube será impossível de ser feita a partir do seu próprio veículo, que tenderá a fazer de conta que os piores momentos se parecerão com um “mar de rosas”. Ao se dar conta disso, ou a parcela mais truculenta da torcida poderá se revoltar contra o patrimônio e contra determinados funcionários e dirigentes com maior facilidade, ou se, por acaso o narrador, o comentarista e o repórter da rádio acusarem algum árbitro de agir contra o clube, haverá provas materiais de montão contra nós mesmos, pois a rádio seria a nossa palavra oficial.

Mas o problema maior será o de que a facção que estiver na Situação dificilmente abrirá o mesmo espaço para quem estiver na oposição poder falar. Da mesma forma, caso haja uma relação de empatia maior do pessoal da oposição com os jornalistas do clube, o que não irá faltar na programação será “fogo amigo”.

Portanto, ainda há tempo pra se pensar muito bem se vale mesmo a pena ter esse veículo a nossa disposição.

O homem é um ser comunicativo. Temos necessidade de ouvir, assistir, ler e de opinarmos acerca dos mais diversos assuntos. A mídia de massa é um formato discursivo que (quando utilizado com critérios transparentes, isonomia e plruralidade) possui o atributo técnico de traduzir discursos vicários dos mais variados campos sociais (jurídico, financeiro, empresarial, religioso, esportivo, acadêmico, político, militar, etc.). Ela nos mantém informados e ajuda a nos orientarmos no mundo em que vivemos.

Todavia, é impossível ser imparcial e é impossível não ser tendencioso: todo homem tem um lado, pois os valores que formam a personalidade de cada um determinam as crenças e as práticas de cada um. Seja por empatia, seja por didática, seja por volume, precisão e criatividade na hora de apresentar a informação, tendemos a acreditar sempre mais em uns e menos em outros. E, em casos extremos, nunca mais assistimos a alguns e acompanhamos apenas outros.

O PAPEL DA CRÍTICA

Não é nada fácil definir ou categorizar conceitos e práticas sociais. Porém, a despeito de qualquer escola ou corrente científica, darei uma opinião estritamente pessoal. Afinal de contas, todos temos lado – mesmo que nossa defesa ou ataque a algo ou a alguém se dê sob diferentes graus de conhecimento de causa, de conservadorismo ou de liberalismo.

Adianto que não citarei nenhum autor e não me considero profissional da área. Contudo, basta se esmerar na investigação, nas fontes e nos contatos para se tornar um conhecedor minimamente competente. Seja no mundo acadêmico, seja no chamado “mercado” de trabalho, acredito que ler, discutir, ponderar, e investigar não são prerrogativas nem legitimizantes e tampouco deslegitimizantes de parte a parte. Da mesma forma, possuir um título de cientista, um certificado de qualidade ou prêmios homologados por instituições cujas reputações se devem a uma série de fatores aos quais não irei discutir aqui também não garantem qualidade. Concordo que, normalmente, esse conjunto de fatores de reconhecimento gera uma expectativa e valoriza uma marca que, não-raro, costumam ser atendidas. Contudo, nem toda especialização é suficientemente crível, assim como nem toda não-especialização é limitada.

A maior dificuldade da crítica reside da necessidade de um indivíduo dotado de interesses e de conhecimentos que deseja transmitir com uma determinada assiduidade necessariamente ter lado e – na maior parte das vezes em que se manifesta – sentir-se obrigado a escondê-lo.

Independentemente do fato de esse crítico ter que agradar a uma entidade de classe, a um campo profissional ou aos interesses econômicos, políticos e simbólicos de quem quer que seja, enquanto houver audiência, ele também estará agradando a si mesmo. Afinal de contas, o seu lugar estará garantido, a sua palavra estará sendo espraiada e ele terá também um retorno financeiro.

Duro é o próprio crítico crer em imparcialidade e em isenção: caso ele mesmo creia nesses valores utópicos, será ou oportunista, ou ingênuo. Afinal de contas, todos temos valores. Neste caso, os valores são emocionais, sentimentais e percebidos. Logo, são subjetivos, graduados e categorizados em função de nossas expectativas e interesses. Ora, se defendo e ataco a uma série de questões de diferentes formas e com diferentes motivações, por mais honesto, justo e bem informado que seja, é impossível que eu deixe de transmitir meus próprios valores ao comentar essas questões.

Muitas vezes, sequer conseguimos definir a nossa própria coerência. Desde que se escreva bem e se saiba sobre o que estamos falando, existe uma margem de posições e de opiniões divergentes, incoerentes e contraditórias que não chegam sequer a arranhar a credibilidade do crítico.

A crítica pode, sim, ser feita por alguém que não vivencia uma determinada prática. Porém, é fundamental que a observação da prática e o contato frequente com quem a executa e vivencia devem ser constantes. Seja jornalística, acadêmica (ou sob a tônica de qualquer outro ambiente de discussão, de debate ou de arguição existente), a crítica não perde a sua legitimidade quando não é feita por alguém diplomado ou com registro profissional.

Por mais contraditória que pareça a afirmação acima, quem garante que um crítico seja um competente executor?

O futebol está repleto de exemplos que apóiam essa hipótese: por acaso alguém como o jornalista Wianey Carlet teria condições de ser dirigente, técnico, atleta ou político envolvido com futebol?

Independentemente do juízo de valor que se faça acerca da capacidade e da credibilidade de Wianey, ele recebeu um papel que gosta de desempenhar. A marca do seu empregador (RBS) acumula um capital social que não apenas facilita a exposição da opinião de Carlet como também a legitimiza. De uma maneira bastante simplista, assim como o eslógão publicitário consagrado afirma a respeito de uma determinada categoria de produtos que “Se é Bayer é bom”, até determinado ponto, pode-se tentar uma associação lógica cuja pressuposição básica é: “Pela RBS, o Rio Grande se vê; se Wianey é da RBS, ele é o espelho do Rio Grande”; logo, como também sou do Rio Grande, também me vejo nele”.

O crítico não precisa atingir a todos nem tampouco a uma maioria para ser considerado bom. Acredito que, além da exposição midiática facilitada e legitimada pela mídia corporativa, há ainda outros elementos envolvidos nesse processo de credibilidade.

Um dos fatores menos respeitáveis é o “chute”. A maior parte da audiência espera uma palavra especializada porque possui certas carências no momento de formar a sua própria opinião: ou as pessoas estão atrás de uma opinião diferente acerca de um determinado tema do qual já tomou conhecimento a partir de outras fontes, ou estão perdidas e precisam de uma única posição um pouco mais complexa ou mais eloquente para adotarem (ou não) uma determinada ideia. Se por acaso optar por palpitar mais do que buscar informações profundas e divergentes a fim de ponderar sobre elas na emissão de um parecer, então o crítico dependerá da sorte dos dados, das cartas ou dos búzios para que possa acertar muito mais do que errar e, assim, manter e até ampliar o seu capital social.

O chute sistemático não é crítica: afinal de contas, está-se ponderando ou emitindo um parecer acerca de algo baseado em que?

O jornalismo como um todo padece de dois males. O primeiro, já foi citado no início deste texto: é a dependência comercial de quem financia a estrutura que garante o espaço e a remuneração do crítico. Contra quem põe o pão na mesa, raramente se investiga. Raramente se denuncia. Raramente se compara. Raramente se critica. Normalmente, ou se elogia, ou dá-se um jeito para incluir o eslógão, o nome, o produto ou o que alguém relacionado à empresa ou ao produto do anunciante em alguma nota.

Puxa-saquismo e assessoria de imprensa não são crítica e (para ser ainda mais profundo, polêmico, radical e crítico) pra mim não são sequer jornalismo: essas duas categorias assemelham-se por possuíram um discurso baseado na informação incompleta besuntada com vaselina líquida para um consumo supostamente prazeroso e – mais supostamente ainda – sem grandes preocupações futuras. A técnica de redação é jornalística. Porém, se jornalismo for considerado acima de tudo como apuração completa de versões divergentes com o mesmo espaço para ambas, investigação corajosa e minuciosa e denúncia baseada estritamente em fatos cronológicos devidamente documentados, publicidade, relações públicas e assessoria de imprensa não são jornalismo.

Ainda, a crítica não pode ser misturada nem mesmo de maneira sutil à notícia. O grande mal da inescapável sociedade midiatizada é a má leitura, que acarreta na pior interpretação possível. O que o texto diz e o que o texto faz deveria ser, mas não é a mesma coisa: o efeito causado é completamente diferente em função da assimetria social gerada não apenas pelos valores subjetivos como também pela péssima escolaridade.

Muitas pesquisas acadêmicas na área da crítica das práticas jornalísticas concluem que a esmagadora maioria dos especialistas convidados a opinar é solicitada com muita frequência e sem a posição contraditória de um outro colega para que a audiência possa confrontá-la. Quando o contraditório se faz presente, o editor infelizmente costuma desqualificar a posição cujos valores não condizem com os valores do dono do veículo e de seus patrocinadores. A omissão, a supervalorização e a minimização acerca de A ou de B necessariamente compõem um juízo de valor pré-determinado mais pela maneira de dizer e pelo que se deixa de dizer do que propriamente pela percepção do conjunto desse conteúdo.

Independentemente da visão de mundo de cada crítico (que, por sua vez, é determinada pela visão de mundo da sua audiência mas, sobretudo, pela de seus patrocinadores e de quem o mantém no ar), seja ou não por má-fé; seja ou não por ignorância, a maioria faz proselitismo. E quem cumpre melhor o papel de “isento”, de “equilibrado”, de “plural” e de “imparcial” é quem prevalece.

Toda informação, para poder ser compreendida por uma grande quantidade de pessoas não-especializadas em uma determinada área do conhecimento ou distantes de um determinado fato, precisa ser despida dos jargões técnicos a partir de uma competente tradução técnica para uma linguagem comum. O BOM jornalismo é a técnica que determina essa linguagem comum, cuja grande virtude é ser capaz de trazer para o cotidiano leigo da maioria uma série de discursos que, anteriormente, permaneciam guardados a sete chaves pelos cânones dos rituais, das cerimônias e dos vocabulários ultraespecializados.

O campo dos mídias é o único que possui a capacidade de absorver a discursividade dos demais campos sociais (médico, militar, político, esportivo, cultural, científico, etc.), de aprender com eles e também de deixar um pouco de si em cada um desses outros campos. Todavia, o jornalismo, por mais especializado e tecnicamente correto que seja, jamais terá condições de absorver tudo. Jamais será capaz de traduzir tudo.

O jornalismo corporativo caracteriza-se por contar UMA ÚNICA VERSÃO de cada história. E, por mais que os jornalistas persigam a imparcialidade, a isenção e a verdade, nenhum desses três predicados realmente existe.

Eu conto a história que eu quiser com a prioridade que eu quiser da forma que eu quiser. E não preciso ser mau caráter, superficial nem mentiroso para ser superficial e mentiroso. As limitações de tempo e espaço inerentes aos meios de comunicação de massa forjados na Era Moderna (rádio, televisão, jornal e revista – talvez o cinema também possa entrar nessa lista) e as limitações da forma de financiamento da rotina industrial desses meios (como falar mal de quem me dá emprego e comida?) definem por si só a completa impossibilidade de existência da verdade e da imparcialidade.

Portanto, ninguém está totalmente errado nem totalmente certo. O problema maior é a falta de capacidade de conectar os pontos, de incluir como dogma a historicidade e de não saber nem esconder o seu lado quando precisa, nem de advogar sem fazer proselitismo.

A multiplicação de opiniões a partir da ubiquidade dos comentários e dos posts em blogs apenas torna clara a polarização social existente em diferentes graus. Não é preciso entrar no campo político para perceber isso: a música, a ciência, o esporte, os direitos humanos, a educação e uma série de outros campos sociais também está repleta de proselitismo.

Dessa forma, acabamos escolhendo a quem seguir e – por outro lado – também nos esforçamos para estabelecermos relacionamento e estreitarmos laços com aqueles que queremos que nos sigam muito mais em função de nossos próprios valores e interesses momentâneos determinados pelo conhecimento e pela cultura que acumulamos até o momento do que necessariamente pela marca, pelo veículo ou pelo nome.

Até agora, estou plenamente convencido de que tanto o modelo econômico como o modelo de democracia que possuímos está longe de proporcionar opinião e equilíbrio à maioria com pluralidade. Dessa forma, enquanto a tendência for a de polarizar, duvido muito que, caso quem pensa a mídia de massa sob uma perspectiva de esquerda fosse econômica, política e simbolicamente hegemônico, deixasse de ser proselitista ou parcial.

Com isso, não defendo de forma alguma quem defende a exclusão e a concentração de renda a seu favor sob quaisquer meios. Porém, como o modelo é falho, aqueles em quem acredito certamente fariam o mesmo. Provavelmente, com menor intensidade e contundência. Mas que fariam, fariam.

Encerro esta longa missiva com a seguinte pergunta:

– SE NÃO HÁ CRÍTICA NEM OPINIÃO INFALÍVEL E SE AQUELES EM QUE CREMOS SERIAM CAPAZES DE FAZER EXATAMENTE AQUILO QUE CRITICAM ÀS AVESSAS, ACREDITAR EM QUEM, POR QUE E SOB QUAIS CONDIÇÕES?

COMO ESCREVER UM BLOG E FAZER BOM JORNALISMO AO MESMO TEMPO

No último sábado do evento, assisti (online) à mesa de debates sobre blogs e política da Campus Party 2010. Me impressionei bastante com a argumentação do jornalista Adriano Silva, publisher da versão nacional do blog profissional de tecnologia mais conhecido do mundo, o Gizmodo Brasil. Silva também tem um blog no Portal Exame e faz eventuais porém interessantes intervenções via Twitter.

Sempre vi os blogs como a maior possibilidade que o cidadão não-profissional e não-sindicalizado possui de tornar a sua opinião conhecida pelo público. Além disso, o olhar de quem descreve, elogia e denuncia está cada vez mais próximo do cotidiano do que as práticas usuais da mídia corporativa de massa. Defendo que a convergência entre várias mídias sociais (blogs, Twitter, YouTube, Flickr, podcasts, Slideshare, Scribd, etc.) – quando realizada com um verdadeiro cunho político, social e comunitário – constitui-se em um conjunto de técnicas suficientemente capaz de desconstruir o falso envolvimento e o distanciamento comumente verificados nas reportagens e no conjunto de opiniões emitidas por um sistema de comunicação que, via de regra, propõe uma única visão de mundo para todos.

Embora seja muito difícil de percebermos por estarmos diretamente envolvidos nessa prática, é preciso admitir que a polarização partidária e ideológica também é praticada pela blogosfera independente de esquerda. Apesar de uma série de avanços que temos verificado nos últimos anos, esse comportamento restringe a credibilidade de temas e fatos que deveriam estar na boca de todos. Logo, temos, sim, como aumentarmos o nosso alcance, expandindo o nosso público interagente para redes de contato que superem o nosso nicho ideológico.

A crítica à edição e à apuração baseados na distorção, na omissão, na supervalorização, na minimização, na escolha do que e como deve ou não ser dito (e, sobretudo, nas bandeiras levantadas a favor dos interesses econômicos dos financiadores da mídia corporativa) principalmente em relação a tudo o que envolve política, economia, lei e moral deve ser sempre denunciada e monitorada. De maneira geral, esse serviço é realizado com sucesso.

Contudo, creio que a maioria dos blogs independentes erra feio ao fazer dessa pauta a sua principal (muitas vezes até mesmo a sua única) razão de existir. Falta apresentar o bom, o belo, o que funciona. Contar mais histórias com personagens não-políticas, mas que melhoraram de vida a partir de ações políticas de esquerda.

Dentre os maiores erros da blogosfera política dita independente (porém, na verdade, altamente vinculada a ideários partidários e sindicais), percebo que ainda há a crença predominante de que o mundo é regido pela relação entre capital material e trabalho material e pela consequente “luta” de “classes”.

Com isso, não quero dizer que Marx estava errado ou que já foi superado: porém, o tipo de luta e de classe que se tinha como homogêneas na modernidade hoje se travam a partir da resistência da multidão e da emergência da sociedade de nichos. Por isso, cada blogueiro atinge um público diferente, mesmo que tenha uma visão de mundo parecida.

É importante salientar que não vejo mais sentido algum em defender o modelo da democracia representativa, o voto obrigatório e nem mesmo em ter que necessariamente “torcer” por um lado ou por outro. Vejo-me preso a essa arapuca justamente pelo fato de que o único modelo democrático legalmente praticado e imbricado na rotina da maioria é o que ora se apresenta. Precisamos discutir seriamente a democracia emergente, que contempla os atravessamentos sociais, políticos e econômicos compartilhados nos ambientes digital e presencial. Para essa lógica, a lei ainda está muito atrasada. Essa pauta é fundamental, mas deve ser tratada em outros posts.

Enfim… Todos têm um lado e devem expressá-lo claramente. Afinal de contas, transparência e coerência são valores altamente desejáveis para a credibilidade da política nas mídias digitais. Porém, não adianta nada possuir um vasto repertório intelectual e/ou uma vasta experiência de campo e de militância quando os modelos nos quais muitos ainda crêem apresentam-se como estáticos. Enquanto isso, as hibridizações socioculturais que ocorrem informalmente e sem nenhum controle hierárquico não podem ser vistas como fruto de má intenção, confusão ou incoerência.

Infelizmente, a população brasileira é predominantemente covarde e omissa. Os ricos, porque locupletaram-se desde o “descobrimento”; a classe média, porque tem a ilicitude de grande parte dos ricos como exemplo de sucesso, enquanto enxerga os pobres como a materialização do terror de perder o pouco que têm; já os pobres, de sua parte, foram induzidos à covardia e à omissão devido ao bombardeiro midiático que despolitiza e mercantiliza as suas vidas a partir de mensagens que sempre visaram o sumo rebaixamento da sua autoestima.

Todas essas pessoas batem boca. Devido à despolitização, elas têm uma visão absurdamente simplista e incrivelmente genérica sobre tudo e sobre todos. Futilidades e reacionarismos à parte, todo brasileiro é político, médico, técnico de futebol, engenheiro, advogado, funcionário público ou empresário. A única forma de eles compreenderem algo de maneira mais complexa é produzir conteúdo posicionado. E ideologicamente posicionado não implica em um posicionamento voltado para um confronto entre classes: deve-se primar pela informação, pela opinião balizada e pelo detalhamento da ideologia do blogueiro. Contudo, ele deve concentrar esforços para evitar a evangelização partidária.

Adriano Silva não diz que somente jornalistas com diploma devam blogar. Contudo, salienta que a credibilidade de qualquer blog (que, por sua vez, resulta em maior credibilidade, audiência e, quem sabe, até mesmo a possibilidade de blogar profissionalmente) depende acima de tudo do BOM JORNALISMO. Como o publisher do Gizmodo Brasil havia dito na Campus Party, solicitei a ele as diretrizes de bom jornalismo nas quais crê. Como poderão ver logo abaixo, elas servem de reflexão para a blogosfera em geral:

Credulidade

Temos comprado muito fácil um monte de informações em relação às quais o bom jornalismo demanda distância. “O sujeito fez determinada dieta e nunca mais adoeceu”. Não se pode jamais dizer isso na voz da revista, como afirmação do repórter. É impossível sabê-lo. O correto: “O sujeito afirma ter feito determinada dieta e, segundo diz, não voltou a adoecer.” As pessoas mentem muito. É saudável praticar o ceticismo ao ouvi-las. Cruzar informações, apurar. E, depois, deixar claro ao leitor qual é a voz que está dizendo aquilo. Poucas coisas podem ou devem ser enunciadas – o que significa serem endossadas – pela revista.

Ingenuidade

O embevecimento com determinada tese é um risco grande para o jornalista. Ainda mais em revistas como Vida Simples e Religiões, que embutem uma certa simpatia em relação aos assuntos de que tratam. (Quero dizer: não são tão céticas quanto a Super, Mundo Estranho e História são e têm que ser, por exemplo).

Tenho dito que a posição da Super é não ter posição. Não interessa ao leitor a posição do repórter – mas a posição dos especialistas ouvidos pelo repórter. É isso que difererencia reportagem de opinião.

E, salvo as áreas de opinião de nossos títulos, o que fazemos é reportagem. Aí é fundamental que o leitor termine de ler a matéria sem adivinhar a crença pessoal de quem a escreveu. Porque ela simplesmente não importa, não interessa. 

Se ficou claro para o repórter que a tese A é melhor do que a B, mostremo-las como são ao leitor que ficará claro para ele também.

A pior coisa que podemos fazer em jornalismo é o panfleto, o proselitismo. É não ouvir o outro lado. Ao perigoso romantismo do velho jornalismo, de tutelar os leitores e conduzi-los à “verdade” eleita na Redação, contraponhamos boa dose de ceticismo em relação a tudo, inclusive às nossas próprias crenças e aos nosso próprios paradigmas. É preciso desconfiar deles também.

 De boas intenções o inferno jornalístico está cheio.

Legibilidade

Não há nada mais agradável para o leitor do que texto preto, em letras de corpo 10/12, sobre fundo branco. Isto posto, sempre que nos afastarmos daí, por razões estilísticas, temos que ter em mente que, aonde quer que decidamos ir, temos que levar a legibilidade conosco como uma preocupação prioritária. Ainda temos publicado páginas em que a decisão de design zomba do texto, ignora a necessidade de leitura, é cruel com o olho do leitor.

Uma das funções básicas do design de revista é facilitar a leitura. Antes uma página bonita e altamente legível do que uma página estupenda e sem legibilidade.

Ignorância vs. novidade

É fundamental não confundir uma coisa com a outra tanto na hora de definir as pautas quanto na hora de apurá-las, de dar um enfoque a elas. “Dez coisas que você não sabe sobre Che Guevara”, um stretch que eu propus, uma licença poética que eu sugeri ao Celso, soou estelionatário em relação às dez coisas que a matéria efetivamente trazia.

Segundo o próprio Adriano Silva: “Outro material fundamental para reflexão e prática. Escrito por Paulo Nogueira em parceria com seu mentor, José Roberto Guzzo, o melhor jornalista da sua geração, de novo, a meu ver. Guzzo fez a Veja ser o que é. Assumiu a direção da revista em meados dos anos 70 com pouco mais de 100 000 exemplares de circulação e a deixou em 1990 com mais de 1 milhão de exemplares vendidos a cada edição. Hoje Guzzo é colunista de Exame.”

Pequeno Manual Prático do Jornalista”, por José Roberto Guzzo e Paulo Nogueira.

1. Seja Simples

Palavras curtas são melhores que palavras longas.  Frases curtas são melhores que frases longas.  Verbos simples são melhores que verbos pomposos.

Paulo diz” ou “Paulo afirma” é melhor que “Paulo explica” ou “Paulo ensina”.

2. Seja Desconfiado

As pessoas mentem. Cheque informações relevantes ou se proteja com uma técnica adequada de redação.

Paulo diz que caminha uma hora por dia” é melhor que “Paulo caminha uma hora por dia”.

3. Seja Econômico

Evite palavras desnecessárias.

A situação é grave” é melhor que “A situação é muito grave”.

Estou preocupado” é melhor que “Estou bastante preocupado”.

“Muito” e “bastante” são, quase sempre, dispensáveis.


4. Seja Original

Responda rápido: existe início de matéria mais desinspirado que “responda
 rápido”?

Fuja dos clichês e dos lugares comuns.

Brasileiro” é melhor que “brazuca”.

A busca da originalidade vale tanto para o texto como a matéria em si. Qualquer matéria sobre uma nova tendência é melhor que uma matéria sobre a morosidade da justiça.

5. Seja Plagiador

Leia sistematicamente, pedagogicamente as publicações internacionais que sejam referência para o tipo de revista em que você trabalha. Isso encurta o caminho. Preste atenção em tudo: das chamadas de capa às legendas.

6. Seja Versátil

O jornalista ideal é o que é capaz de apurar, escrever e editar. Ele vale por três. E pode ganhar por três.

7. Seja Engraçado

Senso de humor é fundamental, qualquer que seja a natureza da revista.

Instruir e divertir: este é o nome do jogo.

8. Seja Humano

Pessoas estão por trás de tudo sobre que escrevemos, de ciência e TI a hotéis e times de futebol.

A presença de gente nas matérias só as melhora.

9. Seja Claro

Só termine de apurar quando você entender de verdade o que apurou.

Só comece a escrever quando tiver certeza de entender o que estará escrevendo.

10. Seja Consciente

Você precisa saber exatamente o que quer escrever.

11. Seja Lógico

“Comece pelo começo; vá direto até o fim; aí pare.” (Lewis Carroll, em “Alice”)

Concordo 100% com a última assertiva que Do Adriano no final do gentil e-mail que me enviou:

“A BLOGOSFERA PRECISA URGENTEMENTE DE MAIS JORNALISMO. NÃO NECESSARIAMENTE DE MAIS JORNALISTAS. E DE BOM JORNALISMO. COMO O QUE ESTÁ ESCRITO E DECANTADO ACIMA.”

GATEKEEPER, UM MORIBUNDO

O jornalismo corporativo as we know it precisa morrer.

Todavia, nos locais em que o letramento da população é tardio, onde predomina uma baixa conectibilidade às mídias digitais e cuja audiência ainda tem em alta a reputação de oligopólios da mídia corporativa, infelizmente, o jornalismo impresso ainda irá durar bastante tempo.

Já em lugares onde a mídia de massa é bem mais descentralizada e onde o letramento e a conectibilidade se dão em nível avançado, a hora dele já está chegando:

Final Edition from Matthew Roberts on Vimeo.